Quando você pede algo clean e moderno, está pedindo pra sumir
É o briefing mais repetido do Brasil e o motivo de setores inteiros parecerem a mesma empresa. O que dizer no lugar para não virar mais um.
Neste artigo

Toda semana alguém escreve a mesma frase pra alguém do meu mercado: "queria algo clean e moderno". É provavelmente a instrução mais repetida do país.
E é um pedido pra desaparecer.
O que a frase quer dizer na prática
Clean quer dizer sem elementos demais. Moderno quer dizer parecido com o que está sendo feito agora. Junte os dois e o pedido literal é: tire o que chama atenção e me deixe igual ao que já existe.
Ninguém quer isso quando explica melhor. O que a pessoa geralmente quer dizer é "não quero parecer amador", "o que eu tenho hoje é confuso", "meu concorrente parece maior que eu". São três problemas diferentes, com três soluções diferentes, e nenhuma delas é "clean".
O resultado coletivo desse pedido
Entre 2015 e 2019 uma quantidade enorme de marcas grandes convergiu pro mesmo lugar: tipografia sem serifa, geométrica, peso médio, sem nenhum traço particular. O Google fez isso em 2015. A Burberry fez em 2018, trocando uma tipografia com quase um século de uso por uma sem serifa. Dezenas de outras seguiram.
Cada uma dessas decisões tinha justificativa razoável isolada: legibilidade em tela pequena, adaptação a aplicativo, simplificação de sistema. O efeito somado foi um setor inteiro de marcas que, tapando o nome, ninguém distingue.
O mesmo aconteceu em escala menor no Brasil, em setor após setor. Já escrevi sobre esse fenômeno em por que toda startup de IA tem o mesmo logo, e a mecânica é sempre a mesma: cada empresa pede pra parecer atual, e "atual" é definido pelo que os concorrentes acabaram de fazer.
Por que isso custa dinheiro
Marca que ninguém distingue perde nas duas pontas.
Na atenção: se seu anúncio se parece com o do concorrente, metade do investimento em mídia vira lembrança pra ele. Você paga pra reforçar a categoria, não a sua empresa.
No preço: quando duas opções parecem equivalentes, o cliente resolve a dúvida pelo único critério visível, que é a etiqueta. Semelhança visual convida à comparação de preço, e comparação de preço é onde a margem morre.
É por isso que a instrução "quero parecer premium e clean" costuma se contradizer sozinha. Premium depende de ser reconhecível e específico. Clean, do jeito que o pedido é feito, entrega o oposto.
O que dizer no lugar
Briefing bom não descreve estilo, descreve trabalho a ser feito. Substitua "clean e moderno" por respostas a isto:
- →Contra quem: Cite três concorrentes reais e diga em que você precisa parecer diferente deles, não melhor.
- →Onde vai aparecer: Fachada, embalagem, uniforme, anúncio no feed, proposta em PDF, caminhão. O lugar de maior exposição manda no sistema.
- →O que não pode parecer: Restrição é mais útil que referência. "Não pode parecer clínica", "não pode parecer barato", "não pode parecer startup".
- →Que preço você quer praticar: Se a marca precisa sustentar um preço 40% acima da média da categoria, isso muda tudo, e é a informação que quase ninguém dá.
- →O que precisa continuar reconhecível: Se seu cliente já te identifica por alguma coisa, isso entra como restrição, não como material descartável.
Repare que nenhuma dessas frases descreve como a coisa deve ficar. Todas descrevem o que ela precisa resolver. É trabalho de quem contrata definir o problema, e trabalho de quem executa definir a forma.
Quando clean é a resposta certa
Existe. Uma marca poluída, com sete elementos brigando, aplicada de dez jeitos diferentes, precisa mesmo de subtração. Só que aí "clean" é a conclusão do diagnóstico, não o pedido inicial.
A diferença entre as duas coisas decide o resultado do projeto inteiro. Quem chega pedindo estilo recebe estilo. Quem chega descrevendo o problema tem chance de receber uma solução, e solução é o que muda o preço que o mercado aceita pagar.
Perguntas frequentes
O que há de errado em pedir uma marca clean e moderna?
Clean significa remover o que chama atenção e moderno significa parecer com o que já está sendo feito. Somados, produzem uma marca que não se distingue dos concorrentes.
Minimalismo é sempre ruim?
Não. Subtração é a resposta certa para marcas poluídas e mal aplicadas. O erro é começar pelo estilo em vez de chegar nele pelo diagnóstico.
O que colocar num briefing de identidade visual?
Contra quem você precisa se diferenciar, onde a marca vai aparecer, o que ela não pode parecer, que preço precisa sustentar e o que já é reconhecível e deve ser preservado.
Por que marcas parecidas derrubam o preço?
Porque quando duas opções parecem equivalentes, o cliente decide pelo único critério visível, que é o preço. Semelhança visual empurra a categoria para a comparação por etiqueta.
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Escrito por Pedro Cardoso, fundador do FAMOSO.®, estúdio de branding em Porto Alegre.
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