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03/08/20266 min de leitura

Persona não decide compra. Critério decide

Maria, 34 anos, gosta de yoga e viagens. Essa ficha nunca mudou uma decisão de marca. O que colocar no lugar para acertar oferta e comunicação.

Neste artigo
  1. Ficção que parece trabalho
  2. O que decide compra
  3. O que usar no lugar da persona
  4. O ganho prático
  5. Perguntas frequentes
Capa do artigo com o texto 'Persona não decide compra. Critério decide' em tipografia branca sobre fundo preto.

Toda apresentação de marketing tem aquele slide. Foto de banco de imagem, nome inventado, idade, estado civil, hobby, uma frase entre aspas que a pessoa nunca disse. Maria, 34 anos, mora em São Paulo, gosta de yoga e valoriza praticidade.

Agora responda: o que exatamente muda no seu negócio se a Maria tiver 41 anos e gostar de corrida.

Nada. E é aí que está o problema.

Ficção que parece trabalho

Persona virou etapa obrigatória porque preenche uma necessidade real: dá a sensação de que o time entende o cliente. O problema é que quase toda persona é montada com o que é fácil de descobrir, e não com o que decide a compra.

Idade, cidade, renda e hobby são fáceis de escrever e não explicam por que a pessoa comprou de você e não do concorrente. A pesquisa do Ehrenberg-Bass Institute, sistematizada por Byron Sharp em "How Brands Grow", mostra justamente isso: compradores de marcas concorrentes de uma mesma categoria são muito parecidos entre si em perfil demográfico. Quem compra de você se parece com quem compra do seu concorrente. A diferença está no momento e no critério, não na biografia.

O que decide compra

O exemplo mais conhecido veio de um estudo relatado por Clayton Christensen sobre venda de milk-shake numa rede de fast food. A empresa tinha personas detalhadas e vinha melhorando o produto conforme o perfil dos clientes, sem resultado.

Quando alguém foi observar o comportamento real, apareceu outro dado: cerca de 40% dos milk-shakes eram vendidos de manhã cedo, comprados por pessoas sozinhas, pra viagem. Elas não queriam sobremesa. Queriam algo que durasse o trajeto de carro até o trabalho e ocupasse uma mão. O concorrente do milk-shake não era o sorvete, era a banana e o pão na chapa.

Nenhuma ficha demográfica levaria a essa conclusão. O que levou foi olhar a situação de uso.

O que usar no lugar da persona

Troque a biografia por quatro perguntas que mudam decisão de verdade:

  • Gatilho: O que aconteceu na semana em que a pessoa decidiu procurar isso. Quase toda compra tem um evento antes: perdeu um contrato, entrou um sócio, o concorrente lançou algo, a fábrica dobrou de tamanho.
  • Critério de escolha: Quais três coisas ela comparou entre fornecedores, na ordem em que comparou. Isso define o que precisa estar visível no seu site e na sua proposta.
  • Alternativa considerada: Contra o que você foi comparado de verdade, incluindo "não fazer nada", que costuma ser o concorrente mais forte de todos.
  • Medo que trava: O que quase impediu a compra. É o que a sua comunicação precisa neutralizar antes que a pessoa pergunte.

Essas quatro respostas você consegue em meia hora de conversa com cinco clientes que já compraram. Não é pesquisa cara, é telefonema.

O ganho prático

Persona produz slide. Critério produz decisão.

Se você descobre que o gatilho recorrente é "entrou um investidor e a marca ficou pequena pro discurso novo", isso muda a primeira frase da sua home, muda o exemplo que você usa na call e muda até o produto que você coloca na frente. Se você descobre que o medo que trava é "vou ficar dependente do fornecedor pra qualquer alteração", isso vira uma linha na proposta que resolve a objeção antes de ela existir.

A ficha da Maria não muda nada disso, porque ela foi escrita por você, sobre alguém que não existe, com informação que não influencia compra. É um exercício de imaginação assinado como pesquisa.

Cliente de verdade já respondeu tudo que você precisa saber. Falta perguntar as coisas certas e parar de inventar o resto.

Perguntas frequentes

Persona não serve para nada?

Serve pouco quando é montada com dado demográfico inventado. O que muda decisão é situação de compra: gatilho, critério de escolha, alternativa considerada e medo que trava.

Por que perfil demográfico não diferencia clientes?

A pesquisa do Ehrenberg-Bass Institute mostra que compradores de marcas concorrentes da mesma categoria têm perfis muito parecidos. A diferença está no momento e no critério, não na biografia.

O que o caso do milk-shake ensina?

Que observar a situação de uso revela o concorrente real. Cerca de 40% das vendas aconteciam de manhã, para consumo sozinho no trajeto, o que colocava o produto competindo com banana e lanche rápido, não com sobremesa.

Como levantar essas informações sem pesquisa cara?

Conversando por meia hora com cinco clientes que já compraram e perguntando o que disparou a busca, o que foi comparado, contra o que você concorreu e o que quase impediu a compra.

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Escrito por Pedro Cardoso, fundador do FAMOSO.®, estúdio de branding em Porto Alegre.

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