FAMOSO.®, estúdio de branding e identidade visual em Porto Alegre
17/08/20266 min de leitura

Três opções de logo é o jeito mais rápido de escolher a pior

Apresentar três rotas para o cliente escolher parece generoso. Na prática transfere a decisão pra quem não tem critério, e critério sem dono vira gosto.

Neste artigo
  1. Mais opção não é mais liberdade
  2. Se as três rotas são boas, o projeto não decidiu nada
  3. Por que o estúdio faz isso mesmo assim
  4. O que sai da reunião de três opções
  5. O que pedir no lugar
  6. Rota única não é falta de escolha
  7. Perguntas frequentes
Vista de cima de um par de tênis parado diante de uma seta pintada no chão que se divide em três direções.
Imagem: ilustração gerada por IA.

A reunião de apresentação tem roteiro previsível. Três rotas na tela, três nomes de arquivo, e a pergunta: qual você prefere?

Nesse segundo o projeto troca de mãos. Quem estudou o mercado por semanas devolve a decisão para quem viu as opções há quarenta segundos.

Mais opção não é mais liberdade

Em 2000, Sheena Iyengar e Mark Lepper montaram uma bancada de degustação num supermercado da Califórnia. Num sábado a mesa tinha 6 sabores de geleia, no outro 24. A mesa grande atraiu mais gente: 60% de quem passava parava, contra 40% na mesa pequena.

Na hora de comprar o resultado inverteu. Na mesa de 6 sabores, 30% de quem provou levou um pote. Na mesa de 24, 3%.

Dez vezes menos venda com quatro vezes mais opção, numa decisão de vinte reais. Identidade visual é uma decisão que vai reger fachada, embalagem, proposta comercial e preço pelos próximos anos, tomada por alguém que não faz isso profissionalmente. Multiplique o travamento.

Se as três rotas são boas, o projeto não decidiu nada

Quando um estúdio apresenta três caminhos, uma de duas coisas está acontecendo.

A primeira: existe uma rota favorita e duas de acompanhamento, feitas pra perder. Isso é teatro de escolha. Você acha que decidiu, mas foi conduzido, e nem foi mal conduzido.

A segunda é pior: as três são genuinamente defensáveis. Isso significa que a investigação não apontou para lugar nenhum. Se o diagnóstico tivesse achado o problema real de percepção da empresa, ele excluiria caminhos. Diagnóstico que não exclui nada não é diagnóstico, é apresentação de repertório.

Por que o estúdio faz isso mesmo assim

Porque três opções vendem melhor a reunião. Reduz a chance de ouvir não na hora, distribui o risco e faz o trabalho parecer maior, três vezes maior.

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O custo desse conforto é a autoria. Quem apresenta três rotas não precisa defender nenhuma delas, e um projeto sem alguém defendendo o raciocínio não tem como sustentar decisão difícil depois.

O que sai da reunião de três opções

Sai o Frankenstein. A tipografia da um, o símbolo da três, a cor da dois. Ninguém decidiu, todos participaram, e o resultado não tem lógica interna, porque foi montado por votação de partes.

É o mesmo defeito de [pedir opinião sobre a marca](/blog/pedir-opiniao-sobre-a-marca), só que agora dentro da sala e com nota fiscal. A diferença é que aqui a pessoa consultada é você, e você também escolhe pelo mais familiar, porque é o que o olho aceita mais rápido.

Aí vem o sintoma tardio. Seis meses depois alguém do time pergunta por que a embalagem é assim, e a única resposta disponível é "foi o que a gente escolheu na reunião". Marca sem argumento não segura preço em negociação, porque quem vende não tem o que dizer quando o cliente aponta o concorrente mais barato.

O que pedir no lugar

  • →**Critério escrito antes de ver qualquer arte.** Contra quem você é comparado, onde a marca vai aparecer no maior tamanho, o que ela não pode parecer, e qual preço ela precisa sustentar.
  • →Uma rota, defendida, com o raciocínio de como ela chegou ali. Não um caminho a menos, um argumento a mais.
  • →Os caminhos descartados por escrito, com o motivo de cada descarte. É aí que você enxerga se houve investigação ou se houve gosto.
  • →Uma única pergunta de aprovação: isso resolve o que decidimos que precisava ser resolvido, melhor do que o que temos hoje?

Rota única não é falta de escolha

Você continua podendo recusar. A diferença é o que está sendo recusado: não um estilo entre três, e sim um raciocínio inteiro, que vem com justificativa e pode ser rebatido ponto por ponto.

Num projeto de identidade visual que no Brasil vai de uns R$3.000 a R$30.000 dependendo do escopo e de quem executa, o que você compra é a decisão. Arquivo é consequência. Se o [processo de criação de identidade visual](/blog/processo-de-criacao-de-identidade-visual) termina numa vitrine de alternativas, você pagou por pesquisa e recebeu prateleira.

Escolher é confortável porque não exige critério. Decidir exige, e é a decisão que muda o preço que o mercado aceita pagar.

Perguntas frequentes

Quantas opções de logo um estúdio deveria apresentar?

Uma, defendida, com o raciocínio que levou até ela e o motivo dos caminhos descartados. A conversa passa a ser sobre o argumento, não sobre preferência entre alternativas.

Se eu não gostar da única rota apresentada, fico sem saída?

Não. Você recusa o raciocínio e pede a correção do ponto específico que não fecha com o critério combinado. Isso é mais preciso que trocar de opção, porque aponta o defeito em vez de trocar o sintoma.

Por que misturar elementos de propostas diferentes dá errado?

Porque cada rota tem lógica interna: tipografia, símbolo e cor foram escolhidos em relação um ao outro. Recombinar partes de conjuntos diferentes produz uma marca sem coerência, montada por votação de pedaços.

O estudo das geleias serve mesmo para decisão de marca?

Serve como mecânica: mais alternativas atraem mais interesse e reduzem a taxa de decisão. Numa decisão de vinte reais a queda foi de 30% para 3%. Numa decisão que rege fachada, embalagem e preço por anos, o efeito de travamento é maior, não menor.

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Escrito por Pedro Cardoso, fundador do FAMOSO.®, estúdio de branding em Porto Alegre.

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