Três opções de logo é o jeito mais rápido de escolher a pior
Apresentar três rotas para o cliente escolher parece generoso. Na prática transfere a decisão pra quem não tem critério, e critério sem dono vira gosto.
Neste artigo

A reunião de apresentação tem roteiro previsível. Três rotas na tela, três nomes de arquivo, e a pergunta: qual você prefere?
Nesse segundo o projeto troca de mãos. Quem estudou o mercado por semanas devolve a decisão para quem viu as opções há quarenta segundos.
Mais opção não é mais liberdade
Em 2000, Sheena Iyengar e Mark Lepper montaram uma bancada de degustação num supermercado da Califórnia. Num sábado a mesa tinha 6 sabores de geleia, no outro 24. A mesa grande atraiu mais gente: 60% de quem passava parava, contra 40% na mesa pequena.
Na hora de comprar o resultado inverteu. Na mesa de 6 sabores, 30% de quem provou levou um pote. Na mesa de 24, 3%.
Dez vezes menos venda com quatro vezes mais opção, numa decisão de vinte reais. Identidade visual é uma decisão que vai reger fachada, embalagem, proposta comercial e preço pelos próximos anos, tomada por alguém que não faz isso profissionalmente. Multiplique o travamento.
Se as três rotas são boas, o projeto não decidiu nada
Quando um estúdio apresenta três caminhos, uma de duas coisas está acontecendo.
A primeira: existe uma rota favorita e duas de acompanhamento, feitas pra perder. Isso é teatro de escolha. Você acha que decidiu, mas foi conduzido, e nem foi mal conduzido.
A segunda é pior: as três são genuinamente defensáveis. Isso significa que a investigação não apontou para lugar nenhum. Se o diagnóstico tivesse achado o problema real de percepção da empresa, ele excluiria caminhos. Diagnóstico que não exclui nada não é diagnóstico, é apresentação de repertório.
Por que o estúdio faz isso mesmo assim
Porque três opções vendem melhor a reunião. Reduz a chance de ouvir não na hora, distribui o risco e faz o trabalho parecer maior, três vezes maior.
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O custo desse conforto é a autoria. Quem apresenta três rotas não precisa defender nenhuma delas, e um projeto sem alguém defendendo o raciocínio não tem como sustentar decisão difícil depois.
O que sai da reunião de três opções
Sai o Frankenstein. A tipografia da um, o símbolo da três, a cor da dois. Ninguém decidiu, todos participaram, e o resultado não tem lógica interna, porque foi montado por votação de partes.
É o mesmo defeito de [pedir opinião sobre a marca](/blog/pedir-opiniao-sobre-a-marca), só que agora dentro da sala e com nota fiscal. A diferença é que aqui a pessoa consultada é você, e você também escolhe pelo mais familiar, porque é o que o olho aceita mais rápido.
Aí vem o sintoma tardio. Seis meses depois alguém do time pergunta por que a embalagem é assim, e a única resposta disponível é "foi o que a gente escolheu na reunião". Marca sem argumento não segura preço em negociação, porque quem vende não tem o que dizer quando o cliente aponta o concorrente mais barato.
O que pedir no lugar
- →**Critério escrito antes de ver qualquer arte.** Contra quem você é comparado, onde a marca vai aparecer no maior tamanho, o que ela não pode parecer, e qual preço ela precisa sustentar.
- →Uma rota, defendida, com o raciocínio de como ela chegou ali. Não um caminho a menos, um argumento a mais.
- →Os caminhos descartados por escrito, com o motivo de cada descarte. É aí que você enxerga se houve investigação ou se houve gosto.
- →Uma única pergunta de aprovação: isso resolve o que decidimos que precisava ser resolvido, melhor do que o que temos hoje?
Rota única não é falta de escolha
Você continua podendo recusar. A diferença é o que está sendo recusado: não um estilo entre três, e sim um raciocínio inteiro, que vem com justificativa e pode ser rebatido ponto por ponto.
Num projeto de identidade visual que no Brasil vai de uns R$3.000 a R$30.000 dependendo do escopo e de quem executa, o que você compra é a decisão. Arquivo é consequência. Se o [processo de criação de identidade visual](/blog/processo-de-criacao-de-identidade-visual) termina numa vitrine de alternativas, você pagou por pesquisa e recebeu prateleira.
Escolher é confortável porque não exige critério. Decidir exige, e é a decisão que muda o preço que o mercado aceita pagar.
Perguntas frequentes
Quantas opções de logo um estúdio deveria apresentar?
Uma, defendida, com o raciocínio que levou até ela e o motivo dos caminhos descartados. A conversa passa a ser sobre o argumento, não sobre preferência entre alternativas.
Se eu não gostar da única rota apresentada, fico sem saída?
Não. Você recusa o raciocínio e pede a correção do ponto específico que não fecha com o critério combinado. Isso é mais preciso que trocar de opção, porque aponta o defeito em vez de trocar o sintoma.
Por que misturar elementos de propostas diferentes dá errado?
Porque cada rota tem lógica interna: tipografia, símbolo e cor foram escolhidos em relação um ao outro. Recombinar partes de conjuntos diferentes produz uma marca sem coerência, montada por votação de pedaços.
O estudo das geleias serve mesmo para decisão de marca?
Serve como mecânica: mais alternativas atraem mais interesse e reduzem a taxa de decisão. Numa decisão de vinte reais a queda foi de 30% para 3%. Numa decisão que rege fachada, embalagem e preço por anos, o efeito de travamento é maior, não menor.
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Escrito por Pedro Cardoso, fundador do FAMOSO.®, estúdio de branding em Porto Alegre.
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